Christian Horner, ex-chefe da Red Bull afastado do paddock desde julho de 2025, admitiu publicamente ter pressionado o diretor de prova Michael Masi durante as últimas voltas do GP de Abu Dhabi de 2021, corrida que deu a Max Verstappen seu primeiro título mundial de Fórmula 1. A revelação consta de sua autobiografia intitulada “Driver” e de declarações complementares ao High Performance Podcast, detalhando como atuou nos bastidores para influenciar decisão que alterou o desfecho do campeonato.
Na prova em Yas Marina, Lewis Hamilton liderava confortavelmente quando Nicholas Latifi bateu a poucas voltas do final, provocando entrada do safety car. A Red Bull parou Verstappen para pneus novos enquanto o heptacampeão permaneceu na pista. Cinco retardatários separavam os dois rivais e, inicialmente, a ordem seria mantida na relargada, cenário que consolidaria vitória de Hamilton.
“Vamos, Michael, precisamos tocar essa corrida”
Horner detalhou em sua autobiografia o momento exato em que decidiu intervir junto à direção de prova, argumentando que manter os retardatários entre Verstappen e Hamilton produziria desfecho insatisfatório para a temporada inteira.
“Max precisaria passar por todos os cinco até chegar a Lewis, o que seria impossível em uma volta. O GP de Abu Dhabi e a temporada inteira seriam decididos da forma mais insatisfatória possível. Não conseguia entender a decisão. O mundo inteiro queria ver Max e Lewis batalhando em uma final pelo título, não se arrastando em uma decisão decepcionante”, escreveu o britânico em “Driver”.
A pressão exercida foi direta e explícita: “Então, decidi botar pressão na direção de prova: ‘Vamos, Michael, precisamos tocar essa corrida. Por que os retardatários não estão saindo da frente? Será uma vergonha terminar sobre safety car, vamos correr'”, completou Horner.
Comunicação direta com Masi inspirada por Toto Wolff
Em entrevista ao High Performance Podcast, Horner revelou detalhes adicionais sobre como começou a se comunicar diretamente com o diretor de prova, prática que adotou após descobrir que Toto Wolff, chefe da Mercedes, já fazia o mesmo.
A descoberta ocorreu no GP de Barcelona daquela temporada, quarta etapa do campeonato, quando transmissões começaram a exibir comunicações entre chefes de equipe e a direção de prova. Horner reagiu imediatamente ao perceber a vantagem competitiva exercida pelo rival.
“Só naquele ano, em Barcelona, ficou claro para mim que, quando começaram a transmitir as comunicações com o diretor de prova, Toto estava falando diretamente com Michael Masi. [Pensei]: ‘Espera aí, isso não está certo. Você está pressionando o juiz’. Então, disse ao nosso chefe de equipe: ‘Consiga uma linha direta para mim'”, relembrou Horner.
Ruptura com protocolo tradicional de Charlie Whiting
O britânico contrastou sua atuação em 2021 com os 15 anos anteriores sob a direção de prova de Charlie Whiting, falecido em 2019. Durante toda essa era, Horner jamais falou diretamente com o diretor de prova, conduzindo todas as comunicações por intermédio do chefe de equipe designado.
“Em 15 anos, nunca falei com Charlie Whiting enquanto ele esteve lá, tudo sempre era feito por intermédio do chefe de equipe. Então, você começa a fazer o mesmo. É claro que, se você pode exercer pressão e defender sua posição, vai fazer isso. Foi assim que a situação foi se intensificando ao longo daquele ano”, concluiu o ex-dirigente da Red Bull.
Consequências históricas da decisão em Yas Marina
A decisão de Masi de permitir que apenas os cinco retardatários recuperassem posição — em vez de manter a ordem ou liberar todos os carros — resultou em relargada com Verstappen logo atrás de Hamilton na última volta. Com pneus novos, o holandês ultrapassou o heptacampeão na curva 5 e conquistou seu primeiro título mundial.
A polêmica gerou investigação interna da FIA, que resultou na substituição de Masi como diretor de prova e na implementação de reformas estruturais na comunicação entre equipes e oficiais de corrida. Desde 2022, as mensagens diretas entre chefes de equipe e direção de prova foram eliminadas, substituídas por protocolo formal que impede pressão em tempo real.
A admissão de Horner, anos depois, reacende debate sobre integridade esportiva e confirma o que muitos suspeitavam: que pressão deliberada de bastidores influenciou decisão que definiu um campeonato mundial.
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