Quando escrevi que considero Lewis Hamilton o maior piloto de todos os tempos, sabia que pisaria em um terreno delicado. Afinal, no Brasil, qualquer debate que envolva Ayrton Senna costuma provocar reações apaixonadas.
E tudo bem. A paixão faz parte do esporte. O curioso é que muitas das críticas que recebi pareciam responder a um texto que eu não escrevi.
Em nenhum momento diminuí Senna. Em nenhum momento questionei sua genialidade. Muito pelo contrário. Mas vivemos uma época em que interpretar um texto inteiro parece dar mais trabalho do que comentar sobre ele.
O ponto daquela coluna nunca foi comparar números, pole positions ou títulos. Até porque, se quisermos seguir apenas por esse caminho, Hamilton também tem argumentos de sobra.
Meu ponto era outro.
Era sobre representatividade. Sobre transcendência. Sobre o que um atleta se torna quando deixa de ser apenas um atleta. E o que aconteceu em Barcelona apenas fortaleceu essa percepção. Porque a vitória de Lewis Hamilton no GP da Espanha não foi apenas uma vitória.
Foi um acontecimento.
Foi um daqueles momentos raros em que o esporte para de falar apenas com seus fãs e passa a conversar com o mundo.
A frase que dá título a este texto nasceu alguns dias antes da corrida.
Durante um encontro com torcedores, Hamilton ouviu de um fã uma mensagem simples:
“Lembre quem você é.”
Pode parecer pouco. Mas claramente não foi.
Porque em Barcelona vimos um Hamilton diferente. Confiante. Leve. Conectado. Talvez pela primeira vez desde que vestiu vermelho, vimos um piloto que parecia ter finalmente tomado a Ferrari para si. E quando a bandeirada caiu, não era apenas mais uma vitória.
Era história.
Trinta anos depois da primeira vitória de Michael Schumacher pela Ferrari naquele mesmo circuito, outro gigante escrevia seu capítulo particular.
Um recorde caiu. Outro nasceu. Mas o mais impressionante veio depois.
Veio na reação das pessoas. Dos adversários. Dos engenheiros. Dos mecânicos. Da própria Ferrari. Veio na emoção da equipe. Na voz embargada de Hamilton pelo rádio. Nos agradecimentos aos fãs. Na sensação coletiva de que todos sabiam que estavam testemunhando algo especial.
E aí voltamos ao motivo pelo qual considero Hamilton o maior.
Não foi apenas a comemoração em Maranello. Não foi apenas a explosão nas redes sociais. Foi perceber que, em diferentes países, idiomas e culturas, a emoção era exatamente a mesma.
O narrador italiano se emocionou. O inglês se emocionou. O brasileiro se emocionou. O árabe se emocionou. Os fãs nas arquibancadas se emocionaram. Os rivais se emocionaram. Até quem não torce por ele pareceu feliz.
E isso é raro. Muito raro.
Porque títulos impressionam. Vitórias encantam. Mas inspirar pessoas é outra coisa.
Inspiração atravessa fronteiras. Atravessa gerações. Atravessa preconceitos. Atravessa o próprio esporte.
É por isso que continuo acreditando que a grandeza de Hamilton não está apenas no que ele conquistou.
Está no que ele representa.
Está na criança que olha para ele e acredita que também pode chegar lá. Está no pai que trabalhou em múltiplos empregos para financiar um sonho. Está no piloto que venceu tudo o que podia… até que perdeu. Insistiu, aprendeu, caiu, levantou e continuou. Está no piloto que foi dado como um aposentado em atividade como disseram alguns especialistas… e por fim, está no homem que entendeu que sua voz poderia servir para algo maior do que um troféu.
Barcelona foi uma vitória. Mas também foi uma celebração de tudo isso.
Se esse foi o canto do cisne de Hamilton, não saberemos.
Mas se for…
Que bela jornada teve o maior de todos os tempos.

Este é um texto em que o/a autor/autora apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Gulliver Editora Ltda - detentora da marca Racer Media.
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