Começo este texto fazendo uma confissão: há algum tempo, quando o site da Racer Media ainda estava começando, cheguei a cadastrar a empresa em uma dessas casas de apostas na tentativa de conseguir alguma verba publicitária. As tratativas não avançaram. Naquele momento, confesso, eu provavelmente teria comemorado se tivessem avançado.
Hoje, depois de tudo o que aprendemos sobre o tamanho desse mercado, sobre suas estratégias e, principalmente, sobre o estrago que o vício pode provocar na vida de uma pessoa e de uma família, vejo de outra maneira.
Talvez aquele dinheiro tivesse sido um dinheiro maldito.
E é por isso que consigo escrever sobre o tema sem muita dor na consciência.
O Brasil acaba de tomar uma decisão que, gostem ou não dela, muda completamente o cenário do mercado de apostas. Na sexta-feira, 25 de setembro, o governo federal publicou uma Medida Provisória proibindo a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas bets em território nacional. A medida alcança tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos deverão sair do ar.
E imediatamente começaram os discursos sobre empregos perdidos, dinheiro que deixará de circular, arrecadação que desaparecerá e, principalmente, sobre o suposto impacto que isso terá no futebol brasileiro.
É justamente aí que eu gostaria de colocar alguns números na mesa.
Porque, antes de discutirmos quanto as bets colocaram no esporte, precisamos perguntar quanto dinheiro elas retiraram das famílias brasileiras.
Segundo dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), elaborados a partir de estatísticas do Banco Central, as plataformas movimentaram aproximadamente R$ 351 bilhões em transferências via Pix, enquanto a perda líquida das famílias chegou a R$ 62,5 bilhões. Esse número representa a diferença entre aquilo que foi apostado e aquilo que retornou aos jogadores em prêmios. A perda correspondeu a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das famílias.
Sessenta e dois bilhões e meio de reais. É dinheiro suficiente para transformar qualquer discussão em uma simples questão de planilha.
Mas não estamos falando apenas de planilhas.
Em um levantamento anterior, o Tribunal de Contas da União registrou estimativa do Itaú de que os brasileiros haviam perdido R$ 23,9 bilhões com apostas em um período de 12 meses. O mesmo levantamento apontava que o impacto sobre as famílias de menor renda era especialmente preocupante.
E o Banco Central já havia mostrado o tamanho impressionante da máquina. Entre janeiro e agosto de 2024, as empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês, provenientes de aproximadamente 24 milhões de pessoas. O Banco Central estimou que cerca de 15% do dinheiro apostado ficava retido pelas empresas, enquanto o restante retornava aos jogadores em forma de prêmios.
Não estamos falando, portanto, de uma atividade econômica marginal.
Estamos falando de centenas de bilhões de reais passando por um sistema cujo produto é, essencialmente, convencer alguém a colocar dinheiro em risco na esperança de receber mais dinheiro de volta.
E existe uma diferença fundamental entre apostar ocasionalmente e desenvolver uma relação problemática com o jogo.
O Ministério da Saúde já tratava o assunto como um problema de saúde pública antes da proibição. Dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas indicaram que, entre pessoas que já haviam apostado, 7,3% apresentavam jogo de risco ou problemático e 4,4% preenchiam critérios para transtorno de jogo. O próprio Ministério relaciona o problema a perdas financeiras, endividamento, problemas de saúde, violência doméstica, rompimento de vínculos familiares e aumento do risco de suicídio.
Não é simplesmente perder dinheiro. É perder o controle.
E quando uma atividade econômica começa a destruir famílias, a pergunta não pode ser apenas quanto ela arrecada.
É preciso perguntar quanto custa.
Mas aí aparece outro argumento: as bets geram empregos.
Sim, geram.
Empregos são importantes. Impostos são importantes. Investimentos são importantes. Patrocínios são importantes.
Mas nenhuma atividade econômica pode receber um salvo-conduto moral simplesmente porque movimenta dinheiro.
Se fosse assim, jamais teríamos proibido ou restringido uma série de produtos e práticas que também movimentam bilhões.
E aqui entra uma lembrança que, para quem acompanha automobilismo, é impossível ignorar.
Durante décadas, a Fórmula 1 foi intimamente ligada à indústria do cigarro.
Marlboro, Rothmans, Camel, John Player Special, Lucky Strike, Mild Seven e tantas outras marcas fizeram parte da paisagem da categoria. Os carros eram verdadeiros outdoors ambulantes. As equipes recebiam enormes quantias e o dinheiro do tabaco ajudava a financiar estruturas milionárias.
Em 1999, por exemplo, estima-se que as empresas de tabaco tenham investido US$ 285 milhões na Fórmula 1, o maior valor anual da década. Em 2004, o tabaco representava aproximadamente 21% de todo o patrocínio da Fórmula 1.
Quando a proibição começou a se consolidar, houve exatamente o mesmo tipo de preocupação que estamos ouvindo agora.
Como as equipes sobreviveriam? De onde viria o dinheiro? Quem substituiria os patrocinadores?
Algumas equipes realmente dependiam fortemente daquele dinheiro. Patrick Faure, então presidente da Renault F1, chegou a dizer que seria difícil substituir um patrocinador como a Mild Seven e que talvez fossem necessários dois ou três patrocinadores menores para ocupar o espaço deixado por um único grande patrocinador.
Mas aconteceu.
A Fórmula 1 não acabou.
O automobilismo não morreu.
As equipes encontraram novos patrocinadores, novas fontes de receita, novos mercados e novas formas de comercialização. A publicidade de cigarros foi sendo retirada do esporte, e a FIA proibiu o patrocínio de tabaco a partir do fim de 2006.
A categoria continuou existindo.
E mais do que isso: continuou sendo um dos produtos esportivos mais valiosos do mundo.
Essa é a lição que o futebol brasileiro precisa compreender agora.
Eu não tenho dúvida de que o futebol sentirá o impacto da saída das bets.
Os clubes perderão patrocinadores. Campeonatos perderão contratos. Empresas de comunicação perderão publicidade. Agências perderão clientes. Influenciadores perderão anunciantes. E alguns profissionais certamente perderão empregos.
Isso é real e não deve ser ignorado.
Mas transformar essa realidade em argumento para dizer que o futebol brasileiro não sobreviverá sem as bets é outra coisa.
O futebol brasileiro existia antes delas. E continuará existindo depois delas.
O próprio tamanho econômico do futebol mostra que há outros caminhos. A CBF, por exemplo, registrou receita recorde em 2024 e recebeu antecipadamente R$ 1,3 bilhão de seu novo contrato com a Nike. O Brasileirão, por sua vez, foi estimado em quase € 1,63 bilhão em valor de mercado, segundo estudo citado pela própria CBF.
Ou seja: existe dinheiro no futebol.
Existe audiência. Existe paixão. Existe televisão. Existe streaming. Existe publicidade. Existe venda de ingressos. Existe sócio-torcedor. Existe licenciamento. Existe mercado internacional.
Existe a possibilidade de criar novos produtos e novas fontes de receita.
O desafio agora é encontrá-los.
Assim como a Fórmula 1 encontrou os seus depois que deixou de depender do dinheiro dos cigarros.
Existe, entretanto, uma diferença importante entre as duas situações.
O cigarro vendia um produto nocivo à saúde física.
As bets vendem uma promessa.
A promessa de que você pode ganhar.
E talvez seja justamente aí que esteja a sua força.
Porque o apostador não compra apenas uma coisa. Ele compra esperança.
A esperança de recuperar o dinheiro perdido. A esperança de acertar aquela múltipla impossível. A esperança de transformar R$ 20 em R$ 2 mil. E, quando perde, muitas vezes não para. Aposta novamente para recuperar o que perdeu.
É nesse momento que uma diversão pode se transformar em compulsão. E é nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre futebol, publicidade ou mercado.
Passa a ser sobre pessoas.
Por isso, entre o dinheiro que uma empresa de apostas coloca em um clube e a vida de uma pessoa que perdeu o controle do próprio dinheiro, eu não tenho dúvida sobre qual deve ser a prioridade.
Nenhum patrocínio vale uma família destruída. Nenhum emprego justifica ignorar um problema de saúde pública. Nenhuma camisa de futebol deveria precisar de uma bet para existir. E nenhum campeonato pode ser tão dependente de uma fonte de dinheiro a ponto de acreditar que não conseguirá sobreviver sem ela.
Se há algo que a Fórmula 1 nos ensinou é justamente isso.
Quando uma fonte de dinheiro deixa de ser aceitável para a sociedade, o esporte precisa se reinventar.
Foi assim com o cigarro.
Será assim com as bets.
Talvez alguns clubes se indignem agora. Talvez alguns dirigentes digam que a decisão ameaça o futebol. Talvez empresários afirmem que milhares de empregos estão em risco.
Mas o futebol brasileiro já sobreviveu a crises econômicas, mudanças de legislação, perda de patrocinadores, alterações nos direitos de transmissão, pandemias e inúmeras outras transformações.
Vai encontrar um caminho novamente.
E deveria aproveitar a oportunidade para encontrar um caminho que não dependa de colocar o vício como parte da experiência esportiva.
Porque existe algo profundamente contraditório em assistir a uma partida de futebol enquanto, a cada intervalo, a cada placa de publicidade e a cada camisa, alguém é convidado a apostar mais uma vez.
O esporte deveria vender emoção.
Não endividamento.
É claro que a proibição das bets não resolverá todos os problemas relacionados ao jogo.
Sempre haverá jogo ilegal. Sempre haverá outras formas de apostar. E uma proibição também precisará ser acompanhada de fiscalização, prevenção, tratamento e políticas públicas para quem já desenvolveu dependência.
Mas temos uma certeza nisso tudo: não precisamos de bets para que exista futebol, automobilismo ou qualquer outro esporte.
Não precisamos transformar o sofrimento de milhares de pessoas em modelo de negócio para financiar o esporte.
No fim das contas, talvez esta seja a grande pergunta que deveria ficar depois da bandeirada: quanto dinheiro uma sociedade está disposta a ganhar quando o preço é pago pela vida de quem não consegue mais parar de apostar?
A resposta está com você.
Este é um texto em que o/a autor/autora apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Gulliver Editora Ltda - detentora da marca Racer Media.
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