Eu sempre tive uma espécie de ligação com Rubens Barrichello.
Não, nunca conversei com ele. Nunca fomos amigos. Nunca tomei um café com Rubinho e, provavelmente, ele sequer sabe que eu existo.
Mas quem me conhece sabe que sempre enxerguei nele algumas coisas que combinam muito com aquilo que penso sobre a vida.
E a matéria publicada por Josimar Melo no UOL, mostrando a nova missão de Rubinho no combate à fome, acabou me fazendo pensar ainda mais sobre isso. O Instituto Família Barrichello, criado há 20 anos, hoje trabalha com projetos voltados à segurança alimentar, agricultura familiar e comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas. Entre as iniciativas recentes está o livro Tembi’u Guarani: Culinária Indígena, que preserva receitas e saberes do povo Mbya Guarani.
E antes que alguém leia duas linhas e já prepare o discurso para dizer que Rubens é de esquerda ou de direita, vamos combinar uma coisa?
Não é disso que estou falando.
Parece que hoje não conseguimos mais falar de valores sem imediatamente tentar colocar uma etiqueta política na pessoa.
Quando digo que gosto da maneira como vejo Rubens Barrichello, estou falando de outra coisa. Estou falando de visão de mundo. Do carinho que demonstra pelos filhos. Da maneira como fala da família. Da relação madura que conseguiu construir depois do fim do casamento. Da forma como fala do pai e dos esforços que todos fizeram para que aquele garoto pudesse chegar à Fórmula 1.
Estou falando, principalmente, da maneira como parece compreender que aquilo que recebeu da vida também pode ser devolvido.
E isso, para mim, vale muito.
Talvez porque eu tenha aprendido cedo uma coisa que considero fundamental: eu não costumo medir um ser humano pelos troféus que ele conquistou.
Troféus são bonitos. Medalhas brilham. Recordes ficam nos livros. Mas nada disso diz, necessariamente, que alguém foi uma boa pessoa.
O maior troféu que podemos conquistar é saber que, todos os dias, fizemos alguma coisa para tornar a vida de alguém um pouco melhor. E mais: saber que temos responsabilidade sobre isso.
Porque ter poder, dinheiro, fama, talento ou qualquer outra forma de privilégio é uma coisa. Saber usar isso para o bem é outra.
E isso é para poucos.
Rubinho, pelo que consigo enxergar daqui, é um desses poucos.
Rubinho amadureceu
Eu sei que existem críticas à Rubens, tanto na área esportiva, quanto também de como ele se relacionava com alguns jornalistas durante os anos de Fórmula 1.
Gente que acompanhou sua carreira de perto conta histórias de momentos difíceis, relações complicadas e comportamentos que nem sempre eram fáceis de lidar.
Eu não estava lá. Então não tenho por que contestar quem viveu aquilo. Mas também consigo entender o outro lado.
Imagine passar anos sendo chamado de fracassado por milhões de pessoas que jamais chegaram nem perto de fazer aquilo que você fez. Imagine ser motivo de piada porque você chegou “apenas” à Fórmula 1. Imagine carregar durante anos a fama de quem nunca foi suficientemente bom, mesmo tendo conseguido chegar ao lugar em que menos de uma fração dos pilotos do planeta consegue chegar.
Não deve ter sido fácil. Para ele. Para a família. Para ninguém. Isso não justifica os erros que pode ter cometido. Mas ajuda a entender pessoas. E talvez a grande diferença esteja justamente aí.
Rubens amadureceu. Como todos nós deveríamos amadurecer.
Eu também tenho uma pequena história com Rubinho
Talvez pouca gente saiba, mas eu escrevi uma história em quadrinhos infantil sobre a primeira vitória de Rubens Barrichello na Fórmula 1.
A ideia nasceu quando aquele momento completou 15 anos, em 2015. Fiz a história e disponibilizei gratuitamente na internet.
Era uma maneira simples de contar para crianças que existia um brasileiro que havia chegado à Fórmula 1, enfrentado enormes dificuldades e, finalmente, conseguido vencer.
Hoje, essa história não está mais disponível. Mas talvez ela tenha encontrado um destino ainda melhor.
Tenho a intenção de conversar com o Instituto Família Barrichello para repassar os direitos da obra e permitir que eles possam explorá-la da maneira que julgarem melhor.
Se isso acontecer, será uma maneira pequena — mas muito sincera — de eu também contribuir com o trabalho que eles vêm desenvolvendo.
Vou tratar disso com calma e, quando houver um desfecho, conto aos leitores por aqui.
A nova corrida
Foi por isso que a matéria do UOL me chamou tanta atenção.
Rubinho encontrou outra corrida.
Agora não existe grid. Não existe classificação. Não existe bandeirada. Não existe companheiro de equipe. Não existe contrato de piloto.
Existe gente. Existe fome. Existe cultura. Existe memória. Existe a possibilidade de transformar aquilo que ele conquistou ao longo da vida em alguma coisa que ultrapasse o próprio Rubens Barrichello.
O livro Tembi’u Guarani: Culinária Indígena, por exemplo, reúne 25 receitas tradicionais e conhecimentos ligados à alimentação, espiritualidade, território e cultura do povo Mbya Guarani. A publicação é gratuita e pode ser baixada no site do Instituto Família Barrichello.
Baixe gratuitamente o livro Tembi’u Guarani no Instituto Família Barrichello
E talvez seja isso que mais me atraia nessa história.
Rubinho passou boa parte da vida tentando chegar ao primeiro lugar.
Agora parece ter descoberto que existem pódios muito mais importantes. Porque, no automobilismo, você passa a vida inteira tentando chegar à frente dos outros.
Na vida, talvez a verdadeira vitória seja conseguir levar outras pessoas junto.
Rubens Barrichello ganhou e perdeu corridas. Tomou decisões certas e erradas. Foi amado e também criticado. Foi motivo de piada, mas também celebrado.
E ele continuou…
Hoje, olhando para essa nova missão, tenho a impressão de que Rubens está vencendo a corrida mais importante de todas: a corrida da vida.
Este é um texto em que o/a autor/autora apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Gulliver Editora Ltda - detentora da marca Racer Media.
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